Os zoológicos nasceram graças ao entusiasmo dos aristocratas, a partir do século XVI. Possuir animais selvagens significava um sinal de luxo e poder sem precedentes...
Assim que os animais selvagens conheceram outros lugares, apareceram estábulos de animais exóticos e os zoológicos que, desta forma se desenvolveram, multiplicaram e democratizaram-se.
Em vários séculos, os parques zoológicos desenvolveram-se bastante, tanto em sua aparência como em suas ambições...
Séculos XVI a XVIII – Os estábulos da aristocracia
Desde a Antiguidade, era um costume utilizar animais selvagens para fins utilitários: para a guerra, caça, estética, nos cortejos, nas paradas militares ou em volta dos palácios.
Dependendo da região, encontravam-se pássaros exóticos, leões, elefantes. Batalhas entre animais selvagens e domésticos também eram organizadas por puro prazer, onde eram classificados os mais fortes.
Era a alegria de uma sociedade guerreira. Já se importavam espécies que não existiam por ali, tais como o urso, o lince, o leão, algumas vezes o tigre, o tigre-lobo, as caças, o veado, o gamo...
No século XVI, os aristocratas passaram a prender os animais selvagens, que se tornaram sinal inegável de riqueza. Na Itália do Renascimento, os cercados já estão bastante conhecidos.
Os grandes impérios coloniais como Portugal, o Império Germânico, a França não demoram a imitar os italianos e desenvolvem cercados mais ostentosos. Por vezes alguns animais chegavam a entrar nos aposentos reais.
François 1º, por exemplo, dormia algumas vezes com um leão ao pé de sua cama. Pássaros exóticos eram muito procurados e colecionados...
No estábulo de Belvedere, fundado em 1716 pelo príncipe Eugène, havia 59 espécies. Na mesma época introduziram-se os vegetais e foram criados os jardins botânicos.
Estes animais eram quase sempre presenteados pelas potências orientais, presentes diplomáticos, doações ou trocas entre países europeus.
Tornou-se produto de comércio em potencial, naqueles tempos de grandes descobertas e de colônias. Organizaram-se então, expedições com o objetivo de trazer as raridades.
Porém, surge um grande problema que é a mortalidade dos animais: a aclimatação é difícil, o transporte muito longo feito em condições deploráveis.
Tudo isto provocava custos bastante elevados, limitando estes prazeres à alta aristocracia. Os cientistas vão se interessando pouco a pouco...
A partir do fim do século XVII, aparecem os jardins de modelo italiano e foram criados estábulos de curiosidades, com animais raros, dispostos segundo a espécie.
Foi, por exemplo, o caso da corte francesa, em Versalhes, onde se desenvolveram espaços particulares, como o pátio dos avestruzes, dos pássaros, dos pelicanos... ao lado dos cercados dos cavalos, dos veados, das gazelas, aumentados no começo do século XVIII por outros pátios como: cervídeos, galináceos, leões, tigres, panteras...
Os estábulos eram visitados exclusivamente por convidados importantes. Estes celebram a glória do rei, sua ostentação e sua supremacia sobre as potências estrangeiras. Era uma maneira de dominar a natureza.
No século XVIII, uma pequena revolução ocorre... Os jardins reais são abertos aos burgueses. O povo não é convidado mas descobre a existência dos animais selvagens nos espetáculos graças aos apresentadores ambulantes que circulam nas regiões e param nas feiras.
Logo, pequenos estábulos aparecem em algumas cidades, como Amsterdã. Estes fazem um grande sucesso. O público gosta principalmente dos animais monstruosos, as brigas entre ursos... E é isto que lhes era oferecido.
Século XIX – Os primeiros zoológicos públicos
Frente ao sucesso dos estábulos nas cidades, mas, sobretudo por uma motivação de estudo científico dos animais selvagens, os naturalistas criam em 1794, na França, em Paris, um estabelecimento a serviço da nação: O Jardim das Plantas.
Desde sua criação, encontramos uma casa de macacos e de pássaros, covas para ursos, rotunda para elefantes e girafas, uma construção para animais ferozes, etc. Há bastante espaço e a arrumação é cuidadosa.
Criam-se desníveis, plantam-se árvores, bosques, constroem-se bacias, casinhas de madeira. Instala-se um sistema de ruas entre os jardins para harmonizar: um verdadeiro jardim à Inglesa.
A princípio, entrava-se nestes jardins exclusivamente com a autorização de um cientista. Um ano mais tarde, devido ao aumento da demanda, abrandaram-se as restrições: quatro dias da semana ficam reservados aos estudantes do museu e aos artistas e os três outros dias são abertos ao público, entusiasmado.
Este modelo foi adotado em toda a Europa no século XIX: em Madri, em Postdam em 1822 e no Regent's Park de Londres em 1828.
Começa-se a falar em Jardins Zoológicos, termo que aparece nos jardins da sociedade zoológica de Londres, e que depois se generaliza, sendo que no começo do século XX, adota-se definitivamente o Zoológico. Agora se valoriza o conteúdo, a zoologia e não mais o espaço.
A abertura para um grande público se dá em todos os lugares em diferentes etapas. Em Londres, o acesso é limitado aos membros da Zoological Society, durante os 20 primeiros anos.
Somente alguns estrangeiros são admitidos durante a semana, mediante a apresentação de um bilhete de recomendação assinado por um sócio e 1 Xelim.
Depois, pouco a pouco, se percebe que é preciso rentabilizar os lucros e o jardim é então aberto a todos. Os que não o fazem, não demoram a falir.
Neste mesmo período, os estábulos reais são contestados. Parece inacreditável que animais são alimentados enquanto as pessoas morrem de fome...
Apenas alguns aristocratas, artistas ou colonos nostálgicos conservam os selvagens aos pés de suas camas. Por exemplo: Sarah Bernhardt, que tinha um puma em 1895 ou Cécile Sorel que tinha um leão em 1880.
A exibição de animais selvagens nas ruas pouco a pouco é proibida e as brigas entre as feras são abandonadas. Restam apenas os amestradores de ursos, apresentadores em feiras e pequenos estábulos ambulantes com 5 ou 6 feras, que se multiplicam.
No final do século XIX, os zoológicos passam por grandes mudanças, rejeitando as fracas e desnudas superfícies das jaulas.
Descobrem-se os viveiros, por exemplo, sendo que o primeiro foi criado em Rotterdam em 1880, em chão de terra ou de relva, árvores e moitas, ninhos e abrigos; suas dimensões aumentam a fim de permitir que o pássaro voe ou estenda as asas.
Todos os locais dão uma ilusão de natureza e oferecem mais espaço para alguns exercícios. O exemplo é dado em Berlim e Londres. Deseja-se aclimatar e domesticar os animais, mas com mais respeito que outrora. A Sociedade Protetora dos Animais (SPA) criada em 1845 em Paris, se engaja nesse sentido.
O objetivo principal é o divertimento e a instrução do povo. É preciso satisfazer sem parar a este público, reabilitar regularmente e adquirir sempre novas espécies.
Fazem-se enormes esforços para mostrar adequadamente as espécies, colocando, por exemplo, os mais queridos no centro dos jardins.
Templos egípcios em Anvers, em 1856, ou pagodes indianos no Zoológico de Berlim, são construídos a fim de oferecer mais exotismo. O público quer ver animais curiosos, selvagens, ferozes, principalmente diferentes dos europeus, quer sonhar com terras longínquas.
Século XX – Imitação da natureza
No século 20, os zoos conhecem um grande crescimento de público. Torna-se um local de distração popular privilegiada, já que o nível de vida aumenta, assim como o nível de instrução e o tempo livre.
O público quer acompanhar e aprender a conhecer melhor os animais, estar em comunhão com a natureza. Quer descobrir suas condições de vida, seu comportamento, sua sociabilidade.
Assim, os zoos abandonam a exposição individual e passam a mostrar os animais em grupo, reconstituindo as estruturas sociais e seu jeito de viver.
Limitam-se ao máximo os obstáculos entre os espectadores e os animais, criando zoos sem barreiras a partir de 1907, que são um sucesso. É Stellingen, um zoo particular no subúrbio de Hamburgo, que inaugura este tipo de ruptura total com o passado.
Para manter os animais em liberdade, criam-se acomodações inéditas. Cavam-se fossas de 5 a 6 metros de largura, com inclinações abruptas, e assim, os animais não podem sair.
Nem gaiola, nem grades, nem barreiras, algumas vezes o cercado é uma ilha, por exemplo, para os macacos que têm medo da água.
Os animais circulam num cenário natural, os lobos têm sua caverna. Pedras falsas de 50 metros de altura dominam o local e insinuam, por um lado, uma paisagem polar com ursos e por outro lado, um jardim equatorial perto de um lago com aproximadamente 500 pássaros aquáticos e herbívoros.
Conservam-se, ainda assim, as jaulas para os carnívoros e os vidros para as serpentes, e certos pássaros estão presos às rochas por meio de correntes. Rapidamente, este parque é criticado.
Muitos macacos se afogam, os paquidermes se machucam nas paredes, atraídos pelo público ou se matam. Terá rapidamente impulsionado um novo gênero, encontrado em Roma ou em Vincennes, conhecida por seu rochedo de 65 metros de altura.
Os parques de semiliberdade desenvolvem-se no período entre as duas guerras, em Clères na França, em Hellabrunn perto de Munique (1928) em um parque de 50 hectares, ou em Nuremberg num parque de 60 hectares.
Whipsnade, aberto em 1931, no nordeste de Londres, tem 200 hectares. A imitação mais perfeita da natureza torna-se o maior objetivo. A idéia de educação do povo no zoo tem seu apogeu entre as duas guerras...
Em contrapartida, os mais ricos se desinteressam aos poucos deste tipo de lazer que se tornou popular demais. Desenvolve-se uma literatura sobre a vida dos zoos e dos animais selvagens.
É a época dos best-sellers como O Livro da selva, de 1896. Muitos filmes com animais como os de Walt Disney alcançam um grande sucesso. O animal é um amigo de verdade.
As sociedades dos amigos dos zoos, associações de proteção dos animais e revistas sobre animais se multiplicam.
Nos anos 60, no grande movimento de questionamento do capitalismo, denuncia-se a exploração do terceiro mundo. Na mesma época, os zoos, considerados desrespeitosos em relação a natureza e aos animais.
Proclama-se então, em 1978, na Unesco, a Declaração Universal dos Direitos do Animal. A fim de protestar contra a má conservação de alguns zoos, uma legislação de controle é votada em alguns países; em 1981 na Grã-Bretanha, em 1976 na França onde foi criada uma autorização prévia antes da abertura, porém seus efeitos são limitados.
Os zoos abandonam o hábito de ensinar ou domar os animais a fim de se distinguirem do circo que são agora depreciados e passam a mostrar principalmente o cotidiano dos animais: a alimentação, os cuidados, os jogos, a reprodução.
Os parques em regime de semiliberdade têm um grande desenvolvimento, principalmente na periferia urbana e nas zonas de turismo de verão.
Os parques podem ser visitados dentro do automóvel, em barcos, como num safári. Um dos primeiros do gênero será o Thoiry, criado em 1968.
Na década de 70, generaliza-se o emprego do vidro (vitrines), descobre-se também os nocturamas, que são iluminações que invertem o dia e a noite, permitindo conhecer os animais noturnos. Alguns zoos instalam guaritas de observação vitrificadas embaixo do cercado.
Enfim, nos anos 80 e 90, as pesquisas mostram que uma grande parte da população européia (81% na Inglaterra, em 1980) é contrária ao confinamento de animais e recusa-se a ir ao zoo.
Porém os zoos se sustentam e se adaptam. Frente à concorrência, muitos deles se especializam: aquários, marineland, vivariums, reservas ornitológicas, parques de fauna local ou animais rurais...
Hoje, os zoos desempenham um novo papel: o salvamento das espécies em extinção. Une-se a associações mundiais a fim de estabelecer planos de sobrevivência e experimentar a reintrodução de certas espécies na natureza.
Tradução: Solange Id (09/2003)
Texto original “Histoire des zoos en Europe”, by Jonas Livet, extraído do site: Les zoos dans le monde (http://dzoo.free.fr/index.htm – dzoo@free.fr), 2003.
Les zoos dans le monde (http://www.leszoosdanslemonde.com/), by Jonas Livet – Ma collection: Je suis sans cesse à la recherche de livres sur les zoos, de guides de zoos, de cartes postales ou de tout autre document se rapportant au domaine des espaces zoologiques... N'hésitez pas à me contacter (jonaslivet@leszoosdanslemonde.com).
Fotos na página Zoológicos da França.
Última atualização: 03/10/2008. |