Texto e fotos de Ipanema, por Sérgio Eduardo Sakall
Era final de verão em um domingo. Antes do Sol nascer, resolvi por o pé na Rodovia Castelo Branco, sem destino, em busca de novas aventuras fotográficas...
Já havia passado a entrada principal da cidade de Sorocaba quando avistei uma pequena placa no acostamento informando uma certa direção – Floresta Nacional de Ipanema. Liguei a seta do carro e parei mais adiante. Dei marcha ré no veículo e reli a dita placa.
Pensei: Por que não? Afinal, o que eu mais queria era "desbravar" um novo caminho...
Nesta altura de tempo, o Sol já "esquentava" o meu corpo, transpassando, sem a devida permissão, os vidros de meu carro. (É, naquele dia o Sol prometia mesmo uma jornada de intenso calor.)
E foi assim que segui por mais alguns quilômetros as orientações de outras placas iguais aquela. Por alguns quilômetros a estrada era asfaltada, depois, veio a de terra – "coisa" pela qual qualquer aventureiro vibra. Não muito mais que um quarto de hora cheguei em uma portaria e, foi ali mesmo que fiquei sabendo através das informações de um guarda, sobre as inúmeras atrações existentes naquele lugar.
Assim, numa calma manhã ensolarada, apesar do meu espanto, acrescentei ao meu saber inúmeras outras histórias sobre a minha Pátria.
É surpreendente conhecer lugares tão próximos de nós que ainda remontam a história do descobrimento... Ao mesmo tempo, chega a causar tristeza quando procuramos saber em livros acessíveis sobre a história do Brasil, pois sequer achamos referencias àquele lugar: Fazenda Ipanema, ou mesmo sobre os primeiros fornos instalados em nosso país.
Paga-se uma pequena taxa de entrada e num primeiro lance de vista enxerga-se um grande sítio com edifícios comuns e outros que qualquer pessoa diria que se tratam de construções muito antigas. Também logo se vê um médio lago, como uma represa quase "virgem", ainda protegida da depredação humana. Estando no alagado do parque, pude conferir que ele é freqüentado por capivaras e diversas aves que podem ser vistas de qualquer ponto. Também pode-se praticar pescaria, pois uma espécie de pesque-pague existe no local.
Mais ao fundo, no horizonte próximo, vê-se uma montanha singular, a qual é conhecida como Morro de Araçoiaba ou, hoje, como Morro de Ipanema. Araçoiaba é uma palavra de origem indígena que quer dizer "o lugar onde o Sol se esconde". Singular e fato curioso é que essa é também a significação de Machu Picchu, no Peru. Será que existiu algum tipo de ligação do velho povo Inca com os nossos índios? (Em outras pesquisas, descobri que Araçoiaba também simboliza proteção contra intempéries ou monte em forma de chapéu).
Fui fitando tudo por onde passava e, para a minha surpresa, fiquei pasmo quando dei de cara com uma ponte antiquíssima. Esta ponte de ferro, vinda da Inglaterra, abriu para mim uma cena muito diferente do que havia conhecido em minhas muitas outras andanças por São Paulo...
Deixei para trás todo o trânsito, poluição, barulho e concreto que tanto marcam a capital de hoje, e entrei numa região ainda rústica, que mistura os primórdios da nossa história com uma tranqüila atmosfera de fazenda colonial.
Foi aqui nestas terras, hoje chamadas de Floresta Nacional de Ipanema, onde se fundiu o ferro para a primeira enxada feita no Brasil. Também foi aqui que, centenas de anos mais tarde, foram feitas as primeiras experiências em tratores e outras máquinas agrícolas produzidas em nossa Pátria. Acreditam nisso?
Bem, estando no Centro de Visitantes – indicação daquele mesmo guarda – conheci o Sr. João, guia local do IBAMA, que me explicou quase tudo sobre a Reserva Florestal. Depois, fui caminhar a pé para interagir naquele espaço tão extraordinário e registrar em fotos tudo que pudesse ver. Em poucas horas percorri toda a extensão.
Perto daqui nasce o rio Ipanema que, depois de percorrer o seu curso por estas terras, deságua no rio Sorocaba. Ipanema é um nome também de origem indígena que vem da junção de "yg" (rio, água) e "panema" (sem valor), isto é "rio pobre", "rio sem peixes".
Esta região, relativamente grande, é o marco de uma época que constitui o nascedouro e os primeiros passos comprovados da siderurgia brasileira. O conjunto de monumentos históricos que se encontram neste local, foram objeto de aprofundados estudos de muitos historiadores, pois aqui encontraram muitas ruínas dos séculos XVI e XVIII. E foi nestas mesmas terras que nasceu o grande escritor e historiador, considerado o "Pai da História no Brasil" – Adolfo de Varnhagem, Visconde de Porto Seguro.
Horas se passaram e o Sol já se encontrava em seu ápice. Eu estava me deleitando com as histórias e deliciosamente me "perdendo" com a minha câmera fotográfica... Foi quando parei para descansar e comer alguma coisa na única lanchonete existente.
Não muito tempo depois, a minha intenção porém, não era ficar na parte urbana, queria explorar lugares "desconhecidos". E como a Fazenda é uma Reserva Florestal, percorrer qualquer das muitas trilhas existentes, só é permitido com algum guia local. Foi o que eu fiz. Numa aventura derradeira, também consegui fazer parte de um passeio turístico, percorrendo todo o restante da fazenda com um ônibus do IBAMA.
Quando acomodado na poltrona de tal ônibus, a guia presente Ofélia, contava que tudo começou por volta de 1589, quando os Bandeirantes Afonso Sardinha, pai e filho, instalaram-se na localidade aos pés da Serra de Araçoiaba. Ambos procuravam ouro, mas só acharam ferro. Oito anos mais tarde, Afonso Sardinha instalou os primeiros fornos Catalãos no Morro de Araçoiaba (1597). Depois ali funcionou o primeiro "engenho" (fundição) de ferro do Brasil em 1765 e, mais tarde, em 1816, tornou-se sede da Real Fábrica de Ferro de Ipanema.
Apesar do cenário ser o mesmo de quando nasceu, atualmente nesta área, o Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo mantém o Centro Experimental ARAMAR, realizando pesquisas na área do enriquecimento isotópico do Urânio, para produção de combustível nuclear para os reatores de Submarinos Brasileiros.
É, parece mesmo que a vocação da Fazenda Ipanema foi a de administrar inovações e apresentar sempre sensacionais modelos da ciência e da tecnologia.
Fiquei sentado no chão apreciando o Morro de Ipanema até o Sol se "esconder" e, de fato, qualquer um pode conferir que os nossos antigos ancestrais estavam certos, pois ali mesmo, atrás do morro é onde o Sol se põe. Só deixei o lugar poucos minutos depois, porém, era claro ainda porque estava em horário de verão. Enfim, foi assim como num sucesso imprevisto, que terminei aquele belo passeio e conheci a Floresta Nacional de Ipanema – lugar que todos devem conhecer.
Espero que este patrimônio seja sempre restaurado e conservado para que nada seja perdido, pois todo histórico aqui existente foram tombados por lei Federal e é de grande importância na história econômica do Brasil. O conjunto de fornos foi considerado também, em 1989 pela Associação Mundial do Aço, como um marco da siderurgia mundial.
Ainda hoje, quando enfrento a poluição e o trânsito da minha cidade, penso naquela fazenda com sua vida simples e tranqüila, na qual um dia de Domingo soube que – o Brasil também começou aqui!
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis
– IBAMA
Caixa Postal: 568 – Sorocaba – São Paulo – CEP: 18001-970
Telefone: (15) 266-9090 – Fax: (15) 266-9115
E-mail: flonadeipanema@uol.com.br
Grande parte destas informações eu agradeço à funcionária do IBAMA: Ofélia, que aliás foi muito simpática, ao guia Sr. João e a Sarah, querida amiga, que me ajudou nas pesquisas.
Para ir mais longe e para quem gosta de literatura, existe um livro para vender no local que serve de estímulo aos interessados em pesquisar ou simplesmente conhecer sobre esse "nosso" patrimônio, marco perene da história do Brasil.
Obra: ARAÇOIABA & IPANEMA – A história daquela maravilhosa região, desde as forjas de Afonso Sardinha até a Real Fábrica de Ferro. Publicação realizada através da parceria entre o Ministério da Marinha, o IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente – e a Secretaria Especial de Recuperação de Bens Culturais do Governo do Estado de São Paulo, que possibilitou uma nova edição atualizada do historiador José Monteiro Salazar, membro da Academia Sorocabana de Letras, membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, e ainda membro do Colégio Brasileiro de Genealogia.
Foto número 1: Recepção – Centro de Visitantes,
esta casa é o local onde se obtém informações sobre
toda a Reserva Florestal e também sobre os horários dos ônibus
de passeio turístico. Aqui encontra-se uma espécie de pequeno
museu e a venda do livro sobre a Fazenda Ipanema.
Foto número 2: Antiga ponte de ferro vinda da Inglaterra.
Fotos 3 e 4: Os fornos de Varnhagen, os primeiros altos-fornos do Brasil.
Fotos 5 e 6: Local dos primeiros fornos Catalãos instalados no Morro
de Araçoiaba.
Fotos 7, 8 e 9: Edifício que foi a Real Fábrica de Ferro.
Foto número 10: Vista parcial do lago e ao fundo o edifício da
primeira fábrica de ferro.
Foto número 11: Ao lado do edifício de engenho uma queda d’água.
Foto número 12: Também ao lado do edifício de engenho uma
porta da época da Real Fábrica de Ferro de Ipanema.
Foto número 13: Vista parcial do lago de Ipanema.
Foto número 14: Única lanchonete do lugar.
Fotos 15 e 16: Cruz construída para homenagear Adolfo de Varnhagem, Visconde
de Porto Seguro. Fica no alto do Morro de Ipanema.
Foto número 17: Vista panorâmica ainda no Morro de Ipanema.
Foto número 18: Árvore localizada em cima do Morro de Ipanema.
Pode-se vê-la de vários pontos do parque.
Fotos 19 e 20: Ruínas de um cemitério do século XVIII.
Foto número 21: Eu ao lado do ônibus do IBAMA.
Última atualização: 17/11/2006. |